20.ago.2026 às 23h00 — David C. Gaze
Quando o ex-técnico Mark Hughes perdeu o filho de 38 anos, um inquérito apontou uma causa que soa quase paradoxal: a síndrome da morte súbita em adultos — mais corretamente chamada, na cardiologia, de síndrome da morte súbita arrítmica (SADS). A família viu um homem aparentemente saudável morrer de forma repentina, sem sinais claros encontráveis numa autópsia convencional.
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Para entender a SADS é preciso lembrar que o coração é, além de uma bomba muscular, um *órgão elétrico*. Cada batimento começa com um sinal elétrico que corre por uma sequência exata de câmaras. Se esse sistema elétrico falhar, podem surgir arritmias. A maioria é inofensiva, mas algumas originárias dos ventrículos — como a fibrilação ventricular — tornam o órgão incapaz de bombear sangue eficazmente.
Na fibrilação ventricular, o coração tremedeia em vez de contrair-se; o cérebro deixa de receber sangue e a pessoa perde a consciência. Sem reanimação cardiopulmonar (RCP) imediata e um choque de um desfibrilador, a morte pode ocorrer em minutos — isso é uma parada cardíaca, que não é o mesmo que um infarto (um ataque cardíaco resulta tipicamente de uma artéria bloqueada).
Por que a autópsia pode não explicar a SADS
Uma autópsia tradicional detecta lesões estruturais: artérias obstruídas, músculo danificado, coração dilatado. Mas um problema elétrico raramente deixa sinais físicos visíveis. O ritmo que antes organizava os batimentos simplesmente não existe mais quando o patologista examina o órgão — por isso um coração pode parecer normal mesmo tendo falhado minutos antes.
O papel da genética
Alguns casos de SADS têm origem em doenças hereditárias que afetam canais iônicos das células cardíacas. Entre as condições associadas estão a síndrome do QT longo, a síndrome de Brugada e a taquicardia ventricular polimórfica catecolaminérgica. Esses nomes complicados têm algo em comum: podem desestabilizar o ritmo sem deformar a estrutura do coração.
Quando o DNA é analisado após uma morte inexplicada — chamada às vezes de autópsia molecular — variantes genéticas associadas a essas doenças são encontradas em até 13% dos casos de SADS. Esses achados não só explicam parte das mortes como também protegem parentes vivos.
O que as famílias e clínicas descobriram
Uma investigação que acompanhou 304 famílias afetadas por morte cardíaca súbita encontrou uma doença cardíaca hereditária em 47% das famílias, com diagnóstico definitivo em 11% dos parentes examinados. Outro estudo mais recente, que acompanhou 686 parentes, mostrou que a maioria dos diagnósticos ocorreu nos primeiros cinco anos — um lembrete de que a investigação rápida importa.
Sinais de alerta — especialmente relevantes em academias
Nem todo caso apresenta aviso claro, mas alguns sinais devem acender um alerta, principalmente para quem treina com intensidade ou para profissionais como personal trainer que acompanham clientes de perto:
- Desmaios inexplicáveis, sobretudo durante esforço físico;
- Palpitações frequentes ou tontura recorrente;
- Sintomas confundidos com convulsões;
- Histórico familiar de morte súbita em pai, irmão ou filho, especialmente em idade jovem.
Não é para entrar em pânico: muitos desmaios e palpitações têm causas benignas. Mas desmaios durante o exercício ou sinais combinados com histórico familiar merecem investigação cardiológica.
O que a investigação envolve
Quando há suspeita de SADS ou de risco hereditário, familiares próximos podem ser encaminhados a uma clínica cardíaca para exames como eletrocardiograma (ECG), ecocardiografia, teste de esforço, monitoramento do ritmo (Holter) e, em alguns casos, testes genéticos. Esses exames ajudam a identificar quem precisa de intervenção.
Os tratamentos variam conforme o diagnóstico: medicamentos, orientações sobre a prática de exercícios e evitar medicamentos arriscados. Para pessoas de alto risco, pode ser indicado um cardioversor-desfibrilador implantável (CDI ou ICD), dispositivo que monitora o ritmo e aplica choque quando necessário.
Prevenção prática para quem trabalha com exercício
Se você é instrutor, personal trainer ou frequenta academias, algumas medidas simples aumentam a segurança sem transformar o ambiente em hospital:
- Aprenda e atualize-se em RCP e descarte a desculpa do “não sei fazer” — a prática salva vidas;
- Tenha acesso fácil a um DEA (desfibrilador externo automático) ou saiba onde há um na sua instalação;
- Durante a anamnese, pergunte sobre desmaios e histórico familiar de morte súbita — informações simples que podem mudar tudo;
- Se um aluno desmaiar durante o treino, trate como emergência e inicie RCP até a chegada de ajuda ou do desfibrilador.
Curioso e prático: a combinação de atenção aos sintomas, rastreamento familiar e disponibilidade de desfibriladores transformou tragédias em histórias de sobrevivência em muitos casos. Não vai evitar toda perda, mas pode evitar a próxima.
Em resumo: a SADS revela os limites das autópsias tradicionais e o papel crescente da genética e do rastreamento familiar. Para profissionais de atividade física e praticantes, a lição é dupla — conhecer os sinais e estar preparado para agir. Afinal, saber aplicar uma RCP e ter um desfibrilador à mão pode ser tão importante quanto escolher o exercício certo para o cliente.
Nota final: descobrir a causa de uma morte súbita pode não trazer de volta uma pessoa querida, mas pode salvar vidas entre os que ficaram.
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